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EVARISTO EDUARDO
DE MIRANDA,
doutor em ecologia, autor do livro “Quando o Amazonas corria para o Pacífico - Uma história desconhecida da Amazônia”, pela Ed. Vozes e diretor do Instituto Ciência e Fé. Dirige a EMBRAPA Monitoramento Ambiental por Satélite, Campinas/SP.

 

 

 

 


ANO 8 - ED 88 - FEVEREIRO DE 2007

A IGREJA E A AMAZÔNIA
EVARISTO E. DE MIRANDA

Entre as mais belas páginas da história da Igreja está sua contribuição decisiva para o conhecimento e a evangelização da Amazônia, nos séculos XVII e XVIII. Em paralelo com as ações militares e administrativas lusitanas, as atividades catequéticas e evangelizadoras desenvolvidas por franciscanos, carmelitas, mercedários e, principalmente, jesuítas foram essenciais no povoamento e na consolidação do domínio português na Amazônia.


Foto: Nara Osga

Existem obras monumentais sobre os jesuítas no Brasil, pouco freqüentadas. A Campanha da Fraternidade 2007 deveria ser uma ocasião para se conhecer melhor o passado da Igreja na Amazônia, o papel decisivo dos jesuítas e entender os desafios atuais. Após sua participação na expulsão dos franceses, holandeses e ingleses da embocadura no Amazonas, em 22 de junho de 1657, partiu de São Luís do Maranhão uma expedição comandada pelo cabo Bento Maciel Parente em direção ao coração da Amazônia. Dois religiosos, os padres Francisco Veloso e Manuel Pires, os acompanhavam. O padre Antônio Vieira, que chegara em 1653 como Visitador Geral das Missões dos Estados do Pará e Maranhão, pregou na partida dessa bandeira.

O padre Antônio Vieira (1608-1697), "imperador da língua portuguesa", pregador jesuíta, nascido em Lisboa, veio para o Brasil em 1615. Autor de alguns dos mais belos sermões em língua portuguesa, teve grande ascendência sobre o rei João IV de Portugal. Em missões diplomáticas prestou relevantes serviços a Portugal, quando das invasões holandesas no Brasil. Aqui, estabeleceu núcleos missionários na Amazônia e conseguiu da Corte a expedição de lei contra a escravatura indígena no Maranhão. Por várias vezes defendeu os judeus. Foi processado pela Inquisição em Portugal, preso em 1665. Em 1681 retornou à Bahia onde veio a falecer, após novo período de atividade. Dentre os seus Sermões, o do "Espírito Santo" é um tesouro em defesa dos índios, da necessária evangelização dos povos amazônicos em suas próprias línguas e sobre o cabedal de amor de e a Deus necessário para realizar tal desafio.

Em 1668, o franciscano Frei Teodósio e o capitão Pedro da Costa Favela fundam uma nova povoação à margem do Rio Negro, nas proximidades da foz do rio Aruim. Em 1669, o Capitão Francisco da Motas Falcão e seu filho construíram ali, no coração da Amazônia, próximo da confluência do rio Negro com o Solimões, um pequeno forte quadrangular em pedra e barro. As tribos indígenas aruaques (barés, banibas, passés e principalmente os manaós) ajudaram na construção e passaram a morar em volta dele. A população formada por indígenas e brancos cresceu rapidamente. Para ajudar na catequização dos índios, os carmelitas, jesuítas, mercedários e franciscanos ergueram uma capela próximo ao forte com o nome de Nossa Senhora da Conceição, futura padroeira da cidade fundada em 1674: Manaus.

Enquanto os portugueses iam estabelecendo-se no baixo Amazonas, os espanhóis progrediam pelas cabeceiras através de aldeamentos missionários dos jesuítas ao longo dos rios Napo, Huallaga, Ucayali, Marañon e Solimões. Em 1684 chegou a Real Audiência de Quito o padre Samuel Fritz, jovem missionário alemão de Tratenau. Entre 1686 e 1688 viajou e trabalhou no Alto Amazonas, num trecho de mais de 1.000 quilômetros entre o Napo e o Japurá com outros jesuítas. Em 1689, esses soldados da Companhia de Jesus alcançaram as imediações da foz do Juruá. Os portugueses, em sentido contrário, iniciaram a subida do Solimões.

Quando o padre Samuel Fritz desceu o rio Amazonas em 1689, encontrou os primeiros vestígios lusitanos representados por casas desertas, junto à foz do rio Purus. A partir da viagem do padre Samuel Fritz até Belém, abriu-se a questão do domínio do Solimões. O governo português mostrou mais interesse em expandir suas fronteiras do que o governo espanhol em ajudar seus missionários a defender suas pretensões amazônicas.


Foto: Nara Osga

Na zona do Solimões, as missões castelhanas dirigidas pelo jesuíta Samuel Fritz floresceram na bacia do Juruá e talvez mais a leste. Ele trabalhou 42 anos na Amazônia, catequizou os omáguas, yurimáguas, aisuaris e ibanomas. Escreveu num diário sua viagem de três anos descendo o Amazonas e deixou o famoso "Mapa Geographica del Río Marañon ó Amazonas", de 1691, uma carta muito precisa do rio Amazonas, em termos de latitude. É cognominado Apóstolo da Amazônia. Várias ordens religiosas, com base em Portugal, foram convidadas para consolidar a presença lusa na Amazônia e evangelizar os índios.

egulada a divisão do território entre as ordens por meio de cartas régias (1687-1714), vários grupos de religiosos iniciaram a tarefa sistemática de povoamento e evangelização, espalhando suas missões por milhares de quilômetros pelo vale amazônico. Os carmelitas, jesuítas, franciscanos e mercedários aprofundaram o povoamento nos antigos domínios espanhóis e ocuparam a área atual do estado do Amazonas. As missões jesuíticas espalharam-se pelo vale contíguo do Tapajós e, mais a oeste, pelo do Madeira, enquanto os mercedários se estabeleceram próximo à divisa com o Pará, nos cursos do Urubu e do Uatumã. Os carmelitas disseminaram seus aldeamentos ao longo do Solimões, do Negro e, ao norte, do Branco, no atual estado de Roraima. Os portugueses conquistaram definitivamente o Solimões entre 1709 e 1710.

Atendendo a uma solicitação da Coroa, os jesuítas iniciaram as primeiras atividades extrativas de vulto das "drogas do sertão" garantindo uma exportação regular de cravo (Dicypellium caryophyllatum), cacau, baunilha, canela, resinas aromáticas e plantas medicinais. Da multiplicidade desses aldeamentos e missões religiosas, principalmente jesuíticas, surgiram dezenas de povoados, a exemplo de Cametá, na foz do Tocantins; Airão, Carvoeiro, Moura e Barcelos, no rio Negro; Santarém, na foz do Tapajós; Faro, no rio Nhamundã; Borba, no rio Madeira; Tefé, São Paulo de Olivença e Coari, no Solimões; e em continuação, no curso do Amazonas, Itacoatiara e Silves. Todo o espaço urbano das cidades mais antigas da Amazônia organizou-se e cresceu em função das igrejas.

Em 1743, os portugueses subiram até o alto rio Negro e penetraram no rio Orinoco pela passagem do canal do Cassiquiare. Essa conexão, entre as cabeceiras e bacias do Negro e do Orinoco, foi confirmada pela primeira vez pelo padre jesuíta Manuel Roviare em 1744.

"É sem dúvida o Amazonas o máximo dos rios, sem injúria dos Nilos, Núbias e Zaires da África, dos Eufrates, Ganges e Indus de Ásia, dos Danúbios e Ródanos da Europa, dos Pratas, Orinocos e Mississipis da mesma América (...) chamado com razão pelos naturais mar branco, paraná petinga." Assim começa a descrição geográfico-histórica do rio Amazonas do padre jesuíta João Daniel (1722-1776), autor de uma obra enciclopédica sobre o rio, a natureza e os homens da Amazônia(1).

Cronista da Companhia de Jesus, o padre João Daniel viveu na Amazônia entre 1741 e 1757, quando foi preso por ordem do Marquês de Pombal. Não sobreviveu aos 18 anos de prisão, vítima do despotismo esclarecido, durante os quais sistematizou de memória tudo o que se sabia sobre a região amazônica. E sem deixar transparecer, sequer nas entrelinhas, nenhuma queixa ou amargor de sua injusta situação de prisioneiro condenado à morte. Uma obra monumental sobre a geografia, a história, a economia, a flora e a fauna, aquática e terrestre, os costumes dos povos e civilizações da região.

Esses pioneiros evangelizadores da Amazônia, cujo martírio é esquecido, vêm sendo tratados de "meros instrumentos a serviço dos interesses dos poderosos de seu tempo". Desmemoriados e cheios de autocompaixão, muitos desses autores julgam que na história da Igreja está praticamente tudo errado até o Concílio Vaticano II. E estimam dificílima a tarefa de evangelizar nos dias de hoje, para explicar a expansão do paganismo e das seitas na Amazônia. Vale lembrar-lhes o padre Vieira. Se lhes parece difícil evangelizar ovelhas que bebem no rio e comem no prado, o que deverá ter sido evangelizar e trazer para a grei da Igreja no século XVII e XVIII, ovelhas que as vezes comiam os pastores e bebiam-lhes o sangue?

1 - DANIEL, João. Tesouro descoberto no Máximo Rio Amazonas. Contraponto,     Rio de Janeiro, 2004.

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