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Luis Henrique Z. F. de Macedo, 23, graduado bacharel em Ciências Sociais, atua em pesquisas de Ciência e Religião, Interdisciplinariedade e Meio Ambiente.



ANO 9 - ED 107 - AGOSTO DE 2008

Ciência e Religião: diálogo possível?
Um estudo de caso no Instituto Ciência e Fé

Luis Henrique Z. F. de Macedo

Desde 1995, um grupo de profissionais liberais e intelectuais de Curitiba reune-se regularmente para discutir temas atuais à luz da razão e da fé e também desenvolver e apoiar pesquisas nas áreas da fenomenologia religiosa. Foi a partir disso que surgiu
o Instituto Ciência e Fé (www.cienciaefe.org.br).

Existe a possibilidade real de um diálogo entre ciência e religião, que leve em conta as especificidades de cada campo sem, no entanto, esvaziar a discussão epistemológica iniciada pelo sociólogo Max Weber e retomada por Ian Barbour, Fritjof Capra e Boaventura Santos, entre outros?

Para Luis Macedo, a existência de tais relações pode ser buscada na análise dos discursos dos participantes do Instituto Ciência e Fé, entidade formada por cientistas e religiosos, que se dedica a estudar as inter-relações entre os dois campos. Estas relações, por sua vez, podem assumir várias formas (veja quadro abaixo), a saber: conflito e independência, delineando a visão predominante de uma ciência moderna; e diálogo e interação, que pode sinalizar uma teoria emergente da racionalidade científica, que muitos denominam de pós-moderna.

TIPOLOGIA DE IAN BARBOUR

Barbour fez as fundações históricas imediatas do campo interdisciplinar entre ciência e religião - na década de 60. Chamou o resultado desta metodologia de “realismo crítico”, a qual serve de “mão-dupla” para ambas formas de conhecimento, na qual existem 4 tipos em que ciência e religião se relacionam.

Conflito - Visão moderna, as duas formas de ver o mundo são inconciliáveis, como acontece no caso clássico Criacionismo X Evolucionismo.

Independência - Religião e ciência permanecem isoladas uma da outra, sem conflito, mas também sem nenhum diálogo ou qualquer interação.

Diálogo - Esse modelo de relacionar ciência e religião inclui questões de fronteira e paralelos metodológicos.

Interação - É mais comum na área teológica e procura integrar as duas visões, como a que coloca que o evolucionismo não nega o criacionismo, mas seria a forma de como Deus age no mundo.

Através da análise conceitual do desencantamento do mundo, proposto por Weber, vou ao início da trajetória do pensamento ocidental a respeito das pertinências e incongruências de tais relações. Segundo Weber, o processo de rompimento com os meios mágicos de manipulação e interpretação do mundo, em um primeiro momento, e dos meios religiosos, em momento posterior, foram desencadeados pelo surgimento de uma racionalidade prática e mundana que pensava vislumbrar "o domínio total das leis da natureza e do progresso humano" (p.53*).

O rompimento de outras esferas de conhecimento com a esfera religiosa, na modernidade, proporcionou um "politeísmo de valores" que tornariam ciência e religião inconciliáveis. Pareceria, assim, que a ciência teria tomado, finalmente, o lugar da religião enquanto modelo explicativo do mundo. Mas, com o advento da bomba nuclear, das pesquisas com cobaias humanas e da pesquisa com armas químicas, esta racionalidade científica começou a ser duramente questionada, principalmente com relação a sua pretensa neutralidade.

No entanto, o surgimento de uma teoria científica em transição, no princípio do séc. XX trouxe novas questões à cena, impulsionadas especialmente pela epistemologia de Popper, Bachelard e Kuhn. Mas foi com Morin e Capra, e com suas teorias da complexidade e sistemas que esta discussão ganhou terreno, culminando na teoria da ciência pós-moderna, representada por Boaventura de Sousa Santos. Segundo este, o paradigma emergente que colocará em xeque a racionalidade científica moderna e dará vazão ao surgimento da teoria pós-moderna se baseia em quatro teses. São elas: "todo conhecimento científico natural é científico social"; "todo o conhecimento é local e total"; todo o conhecimento é autoconhecimento"; e "todo o conhecimento científico visa constituir-se em senso comum". Assim, a ciência pós-moderna, ao sensocomunizar-se, não despreza o conhecimento que produz tecnologia, mas entende que, tal como o conhecimento se deve traduzir em auto-conhecimento, o desenvolvimento tecnológico deve traduzir-se em sabedoria de vida. (p. 35*)

Este novo paradigma, ao incorporar saberes relegados pela ciência moderna - como a religião, a teologia e os conhecimentos vernaculares - experimenta um modo holístico de interpretação e práxis científica. Alguns autores que defendem este novo paradigma propõem uma tentativa de relacionar o pensamento científico ocidental e o conhecimento religioso oriental - especialmente no que trata do Dalai Lama, líder espiritual do Tibet - de forma a demonstrar as possibilidades para a ciência advindas deste diálogo. Capra encontrou, por sua vez, diversos paralelos entre a física quântica e a experiência mística oriental. Isto leva o autor a sugerir a existência de uma "epistemologia do reencantamento".

INSTITUTO No tangente aos estudiosos do Instituto em questão, a pesquisa buscou, através da análise de discurso de três cientistas - todos eles do campo das ciências naturais - e três religiosos, perscrutar as possibilidades deste diálogo no campo real. Para os cientistas, a racionalidade científica é independente e conflituosa com a racionalidade religiosa, por não se adequarem à metodologia científica por eles aplicada. O autor conclui serem eles representantes da ciência moderna.

O diálogo exercido por eles dentro do Instituto não invade as questões epistemológicas, ou seja, não modifica a maneira de "fazer ciência", proposta pela teoria pós-moderna.
Para os religiosos, "a concepção religiosa pode moldar-se e interagir de acordo com o avanço científico" (p.57), como no caso do evolucionismo de Darwin, que não exclui, em sua gênese, a teoria bíblica do criacionismo. O conflito, neste caso, estaria mais relegado ao campo dos princípios, onde a moralidade comum da crença religiosa entraria em atrito com algumas áreas de pesquisa da ciência moderna.

Por fim, a pesquisa trouxe como resultado mais do que um esforço de enquadrar tais discursos e práticas na tipologia proposta por Barbour, o objetivo de tal análise seria constituir um instrumento metodológico "válido para verificar proximidades e distanciamentos entre os diversos tipos de concepções e diálogos entre ciência e religião".

CIENTISTA PROF. WALDEMIRO GREMSKI

O professor Waldemiro Gremski é especialista em biologia celular, trabalhando hoje com biotecnologia, além de ser diretor de Pesquisa e Pós-graduação da PUCPR. Atualmente está pesquisando sobre o veneno da aranha marrom, mais precisamente em sua parte molecular. A sua formação pessoal foi católica, estudando 9 anos em um seminário dos padres vicentinos. Porém, ao adentrar na carreira científica a sua formação entrou em choque com as suas convicções religiosas.

Para ele, a ciência e a religião não são totalmente inconciliáveis. Contudo, por ser a metodologia científica muito rígida, o conhecimento religioso não pode ser aplicado ao conhecimento científico. O diálogo entre os dois serve para que surja uma "fé racional", deixando de lado o literalismo bíblico. Ou seja, na visão do professor, o conflito está latente dentro da metodologia, porém isto não exclui o diálogo, como forma de buscar uma fé racional. Os dois conhecimentos, para ele, também são independentes.

CIENTISTA PROFª. ELEIDI FREIRE-MAIA

A doutora em genética e biologia molecular Eleidi Chautard-Freire-Maia, professora sênior da UFPR, também tem como preceito religioso o catolicismo. Contudo, a religião não foi forte em sua formação, pois sua família não era extremamente católica e tendo estudando sempre em escola públicas, sem caráter religioso.

A concepção da professora Eleidi também é de que a ciência é dura, ou seja, ela não aceita a interferência da religião dentro da sua racionalidade. Isto porque a fé não pode responder às questões da ciência, a fé tenta explicar os fatos naturais misticamente. Porém, "as duas estão à procura de verdades", só que de maneira diferentes. Enquanto a ciência as procura" pelo método objetivo, a fé as procura no campo da subjetividade. O conflito para a professora também é latente, cuja metodologia são totalmente independentes, porém com os mesmos objetivos. O diálogo é necessário para tornar a fé menos obscura.

REVERENDO JEAN CARLOS SELLETI

Jean Carlos Selleti é professor da Faculdade Evangélica e membro do comitê de ética desta faculdade, onde analisa os projetos de pesquisa dos alunos. É formado em teologia, com especialização e mestrado em bioética. Sua formação também foi católica, porém há quase 15 anos se tornou pastor presbiteriano independente.

O diálogo pode acontecer, apesar de ser muito difícil. Isto porque a ciência tem um objeto palpável enquanto o objeto religioso (Deus) não é. Os dois conhecimentos não podem chegar totalmente à verdade, sendo assim que o diálogo pode ajudar um a aprimorar o conhecimento do outro. Aqui vemos um diálogo de mão dupla, o qual a pesquisa procurava. O campo de bioética é um dos locus deste diálogo. O diálogo para o reverendo é mais profundo do que para os outros dois, apesar de também enxergar metodologias independentes e conflituosas.

CIENTISTA DOUTOR CÍCERO URBAN

Cícero Urban é formado em medicina, cuja especialidade é cirurgia oncológica e mastologia. Também é especialista em Bioética pela Universidade do Sagrado Coração em Roma. Atualmente é professor da Unicemp, ministrando Bioética e Metodologia Científica no curso de medicina. Sua formação espiritual foi Católica e para ele a religião é muito importante para a sua vida, tendo uma função bem definida: "ela é base de moralidade, base de comportamento e modelo pessoal, familiar e profissional.”

Urban crê que a relação entre religião e ciência é de complementaridade, tendo como objeto a vida. Contudo, a religião não interfere no método científico, o qual ainda possibilita uma explicação com um grau maior de profundidade do que a religião. Porém elas se complementam, porque acredita que a ciência deixa de lado algumas coisas em sua profissão médica, como reconfortar uma família de um paciente que morreu. Aqui vemos ainda um conflito dentro da metodologia, ou seja, a ciência ainda está fechada para os outros saberes. Porém, assim como Selleti, ele traz para o campo científico preceitos éticos religiosos, através de um diálogo não epistemológico.

RELIGIOSO PROF. ANTONIO CARLOS COELHO

O professor Antonio Carlos Coelho é judeu e ministra aulas sobre ecumenismo e judaísmo do Studium Theologicum. A sua história acadêmica é curta, porém sua carreira como "autodidata" é digna de nota. Começou cursando ciências sociais, mas não se formou, conseguindo sua formação no curso de História. Como autodidata estudou teologia com os jesuítas em Belo Horizonte e arqueologia bíblica e tradição judaica em Israel.

Coelho crê que as duas visões de mundo são totalmente independentes uma da outra. Enquanto a religião responde a seus problemas espirituais sozinha, a ciência não busca nenhuma referência na religião. Contudo, para o professor, o diálogo entre ciência e fé pode ocorrer quando o cientista de fé sente a necessidade de conciliar as duas sabedorias. E um dos resultados é de que a ciência não é tão conflituosa quanto possa parecer. Ou seja, a visão predominante para ele é a independência, porém o diálogo pode acontecer no campo pessoal.

PE. ADILSON SCHIO

Adilson Schio, MS é padre da Igreja Católica Apostólica Romana, um missionário saletino, Superior Provincial dos Missionários Saletinos no Brasil e preside a Fundação Salette, entidade parceira do Instituto Ciência e Fé, na realização de eventos e publicações.

Para ele o diálogo faz com que tanto ciência quanto religião pisem em ovos, enfrentado a boa constituição das racionalidades, que não podem deixar de existir. Porém, o conflito não é tao forte pela parte da Igreja Católica, pois a ciência vai mudando a concepção religiosa, como no caso do heliocentrismo. Porém, quando a ciência esbarra no principio primordial da religião (vida) ele se torna latente. Por isso o diálogo só pode ocorrer no campo do entendimento, mas não no campo dos fundamentos. Percebe-se que para ele é importante manter a independência das duas, apesar de que a ciência ajuda em alguns entendimentos da religião, havendo conflito nos princípios que as duas podem pregar.

***

A relação entre ciência e religião pode se dar em diversos sentidos, mas quais são os mais usuais em cada racionalidade? E também, utilizando a metodologia de Barbour (2004), pela qual o diálogo pode ocorrer numa via de "mão-dupla", ou seja, da ciência para a religião e da religião para ciência, quais das "duas vias" parecem estar mais "dispostas" ao diálogo?

Para verificar empiricamente se estas relações são possíveis, Luís Macedo foi a campo pesquisar o "Instituto Ciência e Fé", para entender quais as visões que alguns de seus membros possuem sobre a relação entre as duas formas de conhecimento. E no caso da ocorrência desse diálogo, como este ocorreria? Nos moldes de uma teoria "pós-moderna" de explicação dos fenômenos científicos e religiosos ou ocorre dentro da teoria moderna (que separa ambos domínios)? A escolha do Instituto, não foi por acaso, e sim porque um de seus objetivos, em tese, é da busca e promoção de uma discussão positiva entre os dois saberes, ou seja, fugindo do fundamentalismo de qualquer uma das partes.

Na pesquisa de campo, foi aplicada a técnica da entrevista, com três membros do Instituto com formação acadêmica científica e três membros com formação religiosa, para uma análise de discurso dos entrevistados. Estas entrevistas foram realizadas no período entre outubro e novembro de 2007. Os nomes dos entrevistados foram indicados pelo professor Aroldo Murá, presidente e fundador do Instituto (o "coração e o cérebro do Instituto", nas palavras de Waldemiro Gremski), de acordo com a intenção de pesquisa: três cientistas e três religiosos interessados diretamente ou indiretamente na relação entre os dois saberes; os cientistas são pesquisadores das ciências naturais.

BIBLIOGRAFIA: BACHELARD, G. A formação do espírito científico: contribuição para uma psicanálise do conhecimento. Rio de Janeiro: Contraponto, 2005. / CAPRA, F. O ponto de mutação. São Paulo: Ed. Cultrix, 2001. O Tao da física. São Paulo: Ed. Cultrix, 2002. / DALAI LAMA,.. / FLORIANI, D. - Conhecimento, Meio Ambiente e Globalização. Curitiba: Juruá/PNUMA, 2004. / FREUND, J. Sociologia de Max Weber. / Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2000. / GIDDENS, Anthony. Risco, confiança e reflexividade. In: Modernização Reflexiva. São Paulo: Ed. Unesp, 2003. / KUHN, T. S. A estrutura das revoluções científicas. São Paulo: Ed. Perspectiva, 1982. / MORIN, E. A cabeça bem feita: repensar a reforma, reformar o pensamento. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2005. / MURPHY, N. Construindo pontes entre a teologia e a ciência em uma era pós-moderna. Peters, T.; Bennet, G. (orgs). In: Construindo pontes entre a ciência e a religião. São Paulo: Ed. Loyola, 2003. / PIERUCCI, A. F. O desencantamento do mundo. São Paulo: Ed. 34, 2003. / POPPER, K. A Lógica da Investigação Científica. Abril Cultural / RUSSELL, R. J.; WEGTER-MCNELLY, K. Ciência e teologia: interação mútua. Peters, T.; Bennet, G. (orgs). In: Construindo pontes entre a ciência e a religião. São Paulo: Ed.Loyola, 2003 / SANTOS, Boaventura de Sousa. Um Discurso Sobre as Ciências. Porto: Edições Afrontamento, 1985. / WEBER. M. A política como vocação. In: Ensaios de Sociologia. Rio de Janeiro: Zahar Ed., 1971 (a). / WEBER, M. A psicologia social das religiões. In: Ensaios de Sociologia. Rio de Janeiro: Zahar Ed., 1971 (b).

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