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Antonio Carlos Coelho
é professor de Ecumenismo e Judaísmo do Studium Theologicum e diretor do Instituto Ciência e Fé.

Estudou em Israel arqueologia bíblica e tradição judaica. Tem artigos publicados em diversos jornais e revistas. Lançou "Encontros Marcados com Deus - Expressão da Unidade do Povo de Deus" pela Paulinas, em abril de 1990.



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Judeus e católicos esperam o Messias

Antonio Carlos C. Coelho

O recente documento aprovado pelo Vaticano surpreendeu judeus e católicos. Afirma o documento que "a espera dos judeus pelo Messias não é em vão". Tal posição firmada oficialmente pela Igreja Católica, segundo artigo publicado recentemente pelo jornal O Estado de São Paulo*, foi bem recebida por estudiosos judeus.

O trabalho assinado pelo Cardeal Joseph Ratzinger, Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, causou surpresa. O teólogo, tido como conservador, disse que "cristãos e judeus compartilham da espera pelo Messias, embora os judeus aguardem sua primeira vinda e os cristãos, a segunda", e ainda destacou, " a diferença reside no fato de, para nós (cristãos católicos), aquele que virá terá as mesmas características do Jesus que já veio".

O Cardeal ao recomendar o cuidado que se deve ter ao interpretar o Novo Testamento, pede desculpas pela interpretação negativa que se fez dos fariseus, pois, freqüentemente, foram "usadas para justificar o anti-semitismo" no ambiente católico.

O rabino Alberto Piatelli, de Roma, surpreendeu-se com as afirmações apresentadas no trabalho, principalmente por partirem do autor do documento - Dominus Iesus - que causou um grande mal estar nas relações entre a Igreja Católica e as outras Igrejas e Religiões. Para o Rabino, esse trabalho é "um avanço no sentido de fechar as feridas abertas pelo outro trabalho". E disse ainda, " Ela (a Igreja) reconhece o valor da posição judaica no que se refere à espera pelo Messias, altera toda a exegese dos estudos bíblicos e restaura o sentido original de nossas passagens bíblicas". Também para o professor Michael Marrus, especialista em história do Holocausto da Universidade de Toronto, o novo documento " é importante... é um progresso notável nas relações entre católicos e judeus".

As afirmações apresentadas pelo Cardeal Ratzinger não representam grande novidade teológica. Essas idéias circulam entre os pensadores cristãos há algum tempo. Portanto, a novidade não está no que foi afirmado, mas no fato do Vaticano ter assumido oficialmente outra experiência messiânica além da cristã, chocando-se com conceitos ainda muito presentes, principalmente nos meios católicos mais tradicionais.

O documento, de valor para as relações judaico-católicas, abre uma perspectiva para a revisão dos velhos conceitos - fariseus, Messias, Aliança - contribuindo para a superação dos preconceitos em relação ao judaísmo.

O fato dos judeus não proclamarem Jesus como o Messias, fez com que os cristãos interpretassem isto como pura e vazia negação do óbvio: o Messias anunciado pelos profetas do Antigo Testamento. Tal "negação", na visão cristã, significou uma auto-condenação judaica, facilitando a imposição de penas e acusações aos judeus ao longo dos séculos. Incontáveis foram as vezes que ouvi nas aulas de religião e nas pregações: "os judeus não tiveram a graça de perceber o que a eles foi revelado"; ou, "os judeus rejeitaram aquele que foi enviado para salvar Israel" e, ao que, em muitas vezes, era acrescentado, "... e o condenaram à morte de cruz". Freqüentemente, tais afirmações eram acompanhadas de uma ensaiada dose de comiseração por parte de quem as fazia. Os efeitos de tal ensinamento, somados com o sentimento de superioridade cristã, alimentou o anti-judaísmo contido no catolicismo: o judaísmo visto como crença primitiva, religião do "Velho Testamento", foi depreciado, "ultrapassado" pela novidade cristã.

O Antigo Testamento tornou-se um 'livro menor' diante do Novo Testamento, uma vez que, para o cristão, o seu valor reside no fato dele ser o anúncio do plano de salvação de Deus concretizado em Jesus, revelado no Novo Testamento, sendo que a sua leitura é feita apenas na ótica prefigurativa do Messias Jesus. Agora, com o novo documento, abre-se uma nova perspectiva de interpretação do Antigo Testamento.

A aceitação de Jesus como o Messias é fundamental para a fé cristã, o que causa um profundo abismo entre o cristianismo e o judaísmo, No entanto, é Jesus quem estabelece a ponte entre o judaísmo e o cristianismo, e é exatamente por ele, que os cristãos deveriam buscar a aproximação, através do estudo, do conhecimento da fé judaica.

Parece-me não estar bem claro para muitos católicos que o cristianismo é resultado de uma experiência única de uma comunidade, e que é, só por esta experiência, que se pode afirmar que Jesus é o Messias. Tal experiência é indiscutivelmente verdadeira, mas para quem a faz. Possivelmente aquele que tem essa compreensão não terá dificuldade em entender que o judaísmo é igualmente resultado de uma experiência única e verdadeira; e que, a vinda do Messias também será percebida de forma exclusivamente judaica. É por esta razão que o documento afirma: "a diferença reside no fato de, para nós (cristãos), aquele que virá terá as mesmas características do Jesus que já veio". Portanto, só os cristãos perceberão as características do Jesus, e os judeus, identificarão o Messias segundo a experiência judaica.

Mas, lamentavelmente, os efeitos dos trabalhos do Vaticano são percebidos a longo prazo. Um documento com esse exige uma mudança de mentalidade dentro da Igreja. Se muitos se dedicam ao estudo e estão abertos para mudanças, não significa que todos assimilem as recomendação do Vaticano - talvez por resistência ou por desconhecimento. Assim foi com a Nostra Aetate: melhoraram as palavras dos pregadores, algumas poucas casas e institutos religiosos incluíram estudos de judaísmo na sua formação, criaram-se algumas comissões de diálogo, etc. Isto já é um ganho no sentido da superação das feridas abertas na história das relações Igreja-Sinagoga.

Todavia, ainda falta. No âmbito da teologia o Vaticano já oficializou importantes documentos para a aproximação de judeus e católicos - um esforço que começou com o Papa João XXIII e teve continuidade com João Paulo II. Apesar de todo empenho e do significativo avanço nas relações judaico -católicas, ainda é preciso se ter cuidado para que todo os esforço da Igreja não se perca. Ninguém é ingênuo ao ponto de acreditar que documentos (e leis) eliminem de uma hora para outra preconceitos enraizados numa sociedade. A semente está na terra, basta que alguém dê uma regadinha, e pronto... - É preciso ficar bem atento aos efeitos das "interpretações bíblicas contextualizadas" orientadas pela ótica de uma "teologia política e econômica" que paira em expressivos meios católicos.

Entendo que a reparação das relações entre católicos e judeus deva ir além da publicação de documentos oficiais. Seria importante haver um esforço educativo junto à comunidade católica sobre o anti-judaísmo no ambiente católico. O pedido de perdão tem um valor imenso. Mas, juntamente com esse perdão deveria haver a promoção - como se faz nas grandes campanhas - de uma reflexão profunda das causas que geraram a Inquisição e a Shoá. Ainda, deveria partir do Vaticano um claro posicionamento em relação ao Estado de Israel. Somente a manutenção da embaixada do Vaticano em Tel-Aviv (por que não em Jerusalém?) não é suficiente para quem tem as raízes espirituais fincadas na Terra de Israel. Sem serem observados esses aspectos: teológicos, históricos (Inquisição - Shoá), político (Povo - Estado) não se poderá dar por completo o esforço para a reabilitação das relações entre católicos e judeus.

* O Estado de São Paulo, caderno A, p. 12, 19/01/02

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